segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Por mais informação digital que tenhamos, por maior que seja a evolução das mídias e dos aparatos em informática, por mais que se discuta e se confirme a importância, a força e os impactos das tecnologias na Educação e nas práticas sócio-culturais em geral, continuamos nos submetendo a processos de seleção no tradicional formato analógico: a partir de escritos e garranchos azul cor de Bic em folhas de almaço.
Especialmente em concorrências e concursos para a área das Ciências Humanas e Sociais, em que escrevemos tantas páginas quanto nosso limite intelectual e físico (haja munheca) permitir, essa mudança seria significativa. Sonho com o dia em que as provas sejam realizadas no Word.
Para evitar o plágio e o famigerado "CRTL-C, CTRL-V", bastava realizar a seleção em um laboratório desconectado da Internet, com máquinas dispostas em um layout que impossibilitasse o cruzamento de olhares e textos. Os candidatos teriam também que ser revistados (nada de pen-drives, aparelhos celulares, ou objetos que possibilitem transferência de informação),
a fim de garantir a inexistência de "arquivos-pesca" trazidos de casa ou enviados via wireless, além de descobrir uma forma de certificar digitalmente os documentos gerados pelos candidatos, o que a essa altura não deve ser tarefa difícil. E claro: os fiscais de prova, em hipótese alguma, poderiam ser dispensados. Deveriam talvez ser duplicados.
Em plena era digit-all, já existe muita gente que não consegue raciocinar diante de uma folha em branco e uma esferográfica, mas desenvolve grandes idéias dando um simples CTRL-N em um editor de texto qualquer. Não que escrever a punho não tenha seu valor; tem e sempre terá. Porém, cada vez mais, a habilidade de escrever está sendo reconstruída a partir de um raciocínio não-linear, modificado à velocidade dos bits, e a idéia de "apagar" vai sendo substituída pelo "editar". Borracha, não. Back-space ou delete.
E na hora de apresentar um raciocínio linear - nas terríveis linhas em branco do papel almaço - chega o desespero. O primeiro parágrafo demora. O segundo bloco de texto vem meio medroso. O terceiro é um parto de gêmeos siameses. E depois que o quarto parágrafo foi escrito, é que se percebe que ele seria uma belíssima introdução. E vem outra idéia, e outra, e, enfim, chega a forma ideal de expressar aquele pensamento, melhor do que qualquer conjunto de palavras poderia expressá-lo.
Mas fazer o quê: não há tempo para o luxo do rascunho, não há papel suficiente, e
a sentença da idéia prematura já está decretada e cristalizada para sempre no documento que comprova a incapacidade humana de escrever o que há de melhor em seu âmago intelectual logo nos primeiros rabiscos.